Contos de Luis Vassallo


O corpo do texto

 

Meu sonho sempre foi fazer tatuagens. No peito vai uma bem grande, minha vida é um livro aberto. Na careca, alguma coisa solene como morada dos deuses. Talvez até merecesse. Mas arrumei algo melhor como beco sem saída ou titica de galinha. Ah sim, gostei. Bem mais apropriado. Nas pálpebras, o corte da navalha. Na boca, o sol escaldante. Nos lábios, comprando gato por lebre. Nas orelhas e ouvido, aqui Judas perdeu as botas. Vamos virar o corpo. Nas costas peludas, pradarias selvagens. No cóccix, o buraco é mais embaixo. Na bunda, não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje. No cu, um vaidoso abismo da alma, e um misterioso na boca da noite. Voltemos ao outro lado. No coração, o sono dos justos. No suvaco, brisa matinal. No antebraço, tempo é dinheiro. Nas mãos, o silêncio opressor. No indicador direito, senta que lá vem a história. No púbis, mato sem cachorro. No pinto, ah, no pinto, início dos tempos, elixir da vida. Não, muito grande, não vai caber. Entre a cruz e a espada. É maior ainda mas não importa, aliás só coube a palavra entre. Talvez pudesse ser, peso dos anos, não sei. Nos joelhos, olhos de Capitu. No pé esquerdo, cagando e andando. No pé direito, siga a voz da experiência. Poderia continuar, mas me pediram para colocar a tampa antes que esfriasse. O corpo de papai estava lindo para o enterro. Ficaria orgulhoso. Para a epígrafe, uma foto e sua frase preferida, uma imagem vale mais que mil palavras.



Escrito por Vassallo às 23h12
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Tatajuba

Não confio no mar. Aquele leva e trás sem despedida. O bonito da concha é saber dançar com as ondas, se agarrar aos grãos da areia até que elas partam, se abandonar na água quando voltam. Porque elas sempre voltam, ah, voltam. Ainda não sei por que fui até lá. Devo ter sido enganada, arrastada. Usavam anzol, linha e tudo. Fui com aqueles malditos durante meses. Logo eu que nunca aprendi a sair de casa, nunca larguei do medo de voltar. Porque se ficamos muito tempo longe a casa pode abandonar a gente, eu sei. Voltamos e ela não está mais aqui, cansada da espera. Fui pra não me demorar nunca. Era uma desgraceira de caminhada até a pescaria. O arrastar dos barcos, tudo. Entravam nas águas enquanto eu ficava na areia caminhando. As ondas distraídas, logo atrás, roubando as pegadas da gente. Sabia que quando eles se apequenavam no horizonte acabavam se esquecendo de mim e corria até sumir por trás das dunas. Não sei o que procurava. Sumia. Por um nadica de tempo pensei ter esquecido de casa. Sei lá. Logo iam puxar a rede. Quando voltei, achei só o espanto do silêncio naquelas bocas escancaradas, recém-saídas da água, como se lutassem pra respirar. A rede abarrotada na areia. A gente conhecia bem aquele mar, ele nunca tinha dado peixes assim. Falaram em tempos de prosperidade. Desconfiei. Talvez não entendesse dos presságios do mar. Acho que foi nesse dia que Delmira chegou.

 

No começo ninguém se apercebeu de nada, mas logo uma das velhas vinha desconfiada vigiar o volume escondido no comprimento da camiseta. Me encolhia, mas não adiantava mais esconder. Voltei pra cá assustada. Destino de peixe é na peixeira, na peixeira! A velha quis retrucar alguma coisa, não sei. Pro diabo! Corri pra casa por via das dúvidas. Não ia abrir a desgraça daquele bucho na frente de todo mundo. Depois disso resolvi não sair mais de casa. Guardar é deixar esquecido. Apertava Delmira bem forte com os braços na esperança de que pudesse encolher aquela maldição até sumir. Não adiantava. Um dia, Delmira acabou escapando por baixo da camiseta. Estatelou no chão, a boca escancarada atrás de ar, feito peixe fora d’água. Escondi aquela desgraça de choro e, no meio da noite, levei ela até o mar. Sem que ninguém soubesse devolvi Delmira pra as águas. Nunca mais veria aquela menina.

 

Mas o mar é traiçoeiro, e as ondas, elas sempre voltam. Já tinha me esquecido do mar, de Delmira, quando ela voltou. Chegou na vila caminhando logo atrás das mulheres que voltavam da praia. Estava crescida, a danada. Delmira, sorrindo, passou a correr por toda a parte, passava pela vila e corria ao redor das casas se espalhando por aí feito mau agouro. Os mais velhos olhavam desconfiados. Aceitei aquele destino e até deixei a minha porta aberta. A danada não fazia cerimônia, mas teimava em entrar em casa com o pé que era só areia. Acho que gostava de dançar. No outro dia, voltava que era mais areia do que antes. Menina dos diabos! Olha o pé em casa! Ela corria, dançava ainda mais, mas não respondia. Nem me lembro da sua voz. Outro dia mesmo me perguntou, com aquela voz sem voz, por que as sereias não tinham pés? Pergunta besta! Porque não sabem fugir dos homens! Não sabem! Ela tentava me atrapalhar, eu sei, queria que eu não olhasse a areia invadindo a casa por baixo das portas. Apanhei uma vassoura, Delmira e a sua areia não iam me vencer.

 

Mesmo assim as areias foram tomando conta da gente. Não tinha mais como esconder. Foram invadindo as casas. Primeiro o teto e depois as paredes. Era assim que as areias iam derrubando elas, uma por uma. Começou quando a igreja que não ficava muito longe da vila sumiu. A ponta do crucifixo que ficava no alto era a única coisa que a gente ainda via sair de cima da duna que se formou. O mar de areia foi chegando com os ventos e prometia engolir toda Tatajuba. Varria aqueles grãos com mais força. Unimos luta contra as areias. Todos nós. Enrolamos panos na cabeça e no corpo pra não sentir aquela dor na pele. Mas a vista era um limpar teimoso. Aquele inferno entrando no olho da gente. Delmira dançava em cima das dunas. Às vezes eu gritava, apontava pra ela, mas logo as vistas da gente embaçavam com a nuvem de areia, Delmira sumia. Ainda ouço os grãos espocando no corpo dela. Pisava nas casas, nos tetos que tentavam resistir. Tentava gritar com ela, mas a areia me fazia fechar a boca. Guardava a minha raiva pra a hora de comer. A cada estalo que a areia dava nos dentes, eu socava o chão como se fosse ela. Os dias passaram. A comida era gosto de areia, o trabalho era gosto de areia, a urina era cheiro de areia. Um dia os homens cansaram. Disseram que a gente não tinha mais jeito aqui. Todos eles. Mais fácil o lugar encontrar jeito do que a gente encontrar o lugar. Não adiantava dizer mais nada, disseram que iam partir na madrugada. Não olhei na cara deles e continuei varrendo. Foram todos. Seguiram rumo contra o vento que trazia aquela desgraça e logo me esqueci deles. Varria. Varria. A casa é uma ampulheta sem pressa.

Outro dia engoli o medo e fui até a praia. Delmira me seguia. Sua risada zunindo com o vento. Ela pensa que pode me levar, eu sei. Qualquer hora os tempos viram de novo, Delmira. As coisas mudam com o leva-e-traz das ondas. Elas já vêm me ajudar, você vai ver. Ah, vêm. Sentei na areia, encolhida entre o vai-e-vem das ondas. A praia é o ninar da espera. As águas regando a paciência da gente. Essas águas teimosas, que não servem mais pra trazer o pai de Delmira de volta, ficam agora a dançar com a menina como quem brinca com um barco ancorado, um peixe que não quer mais voltar pra casa.

Conto vencedor do "Exercícios Urbanos" de dezembro de 2007 do Portal Literal.



Escrito por Vassallo às 18h35
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Desconstrução

Eu digo, todo fim é um repetir-se, uma continuidade que se perde de vista. Um certo falsear de pernas, um cansaço, um esquecimento já esquecido. Uma brecha qualquer flutuando na parede da casa, como a poeira destes móveis num facho de luz solar, e quando nos damos conta já estamos irremediavelmente deixados de fora, ao relento. A velhice nos rodeia como um quintal pedregoso envolvendo a casa. Caminhamos por ela, eu digo, com um certo falsear de pernas, um cansaço, um esquecimento já esquecido. Aos poucos, fui reconhecendo os cômodos, os lugares todos que conhecia desde a infância. A memória é um olhar esquivo pelos vãos, janelas ou rachaduras flutuando na parede, como a poeira destes móveis num facho de luz solar, eu digo. Não sei ao certo quando passei a olhar a casa. Foi um acordo de boca. Coisa do quarto de dormir, sempre zeloso. Ainda lembro do seu hálito subindo pelas paredes como as trepadeiras. Foi um acordo de boca, sempre zeloso, eu digo. Tinha esse saber das mulheres, sabe? Esse de enganar o tempo. Enfeitava-se com tufos de mato e restos de lixo para disfarçar as fissuras nas paredes, as rugas da pintura. De dia, tinha esse saber das mulheres, sabe? Suas ordens ecoavam com a madeira, uma cômoda, estalando com os raios do sol. Matava seu calor com o vento da noite, um danado que só sabia se demorar no escritório. A porta fechada, e talvez nem chegasse a atravessar o corredor. O escritório disciplinou-se e bloqueou qualquer comunicação com o resto da casa. Era assim toda noite. Noite toda. Disciplinou-se. Fechou-se com uns pedaços de papelão numa morte silenciosa, enterrando-se nessa mata que crescia, feito semente. O bater das portas e o estalar das paredes reclamavam o abandono. A ira da casa desabava sobre o escritório com os golpes brutais das vigas de madeira. Não adiantava. As vigas de madeira, a mata que crescia. Olhando assim, pareciam duas casas geminadas. Talvez realmente fossem duas ou até mais. Lá, na face sul, o quarto mais velho tentava fugir. Uma rachadura crescia na parede, do chão ao teto. As folhas de madeira esburacada da janela abriam-se indiferentes como orelhas surdas enquanto todo o quarto gritava um lálálá na face sul. Livrou-se das últimas telhas para contemplar as nuvens, seu movimento pelo céu assim, sem lugar de partida ou chegada. Para contemplar as nuvens pegou sereno com a última chuva, enquanto o quarto do meio lhe sussurrava o sermão dos cupins, um sermão assim, sem lugar de partida ou chegada. Era um pouco estreito, é verdade, pois ficava no meio, o quarto do meio, espremido entre dois quartos. Talvez tivesse medo de ser engolido pelos tijolos. Um tremor, e talvez tivesse medo, desses que vêm de dentro, engolido pelos tijolos, e tudo podia desabar. Estava cercado. Se fosse elevado à condição de escritório tudo seria diferente. Poderia contar com a proteção das estantes, o peso de todos aqueles livros, se fosse elevado. Quando se esquecia dos medos, vigiava o quarto menor pelos buracos da parede. O menor, e talvez o mais doce dos quartos, entrelaçava-se com a copa de uma árvore às escondidas, que espalhava seu pólen como quem espalha a poeira nos móveis, e consentia que os seus galhos tomassem o sótão em segredo. Escondia bem seus segredos. Pela manhã, se algo não ia bem, um pedaço de concreto caía na cozinha. Não sei por que fazia isso, ele, talvez o mais doce dos quartos. Escondia bem seus segredos. A cozinha estava lá para sustentá-lo, com seus azulejos calejados, as rachaduras ramificando-se feito varizes. A cozinha dorme. Tudo o que lhe restou de dignidade era uma lasca de mármore escuro. Dorme. A sala vela seu sono. Crava os ferrolhos no batente da porta feito unhas, e aponta os pedaços de vidros quebrados na janela para os visitantes, esses malditos invasores que, como a ferrugem, voltam sempre a subir pelo portão da frente. O trinco bem fechado, o cadeado no lugar. Confiro o número da casa, embora já não lembre qual seria o número correto, ou o nome da rua, pois a memória já não é mais a mesma e a velhice nos rodeia e o quintal, o quintal largo em volta da casa... e volto lentamente com um certo falsear de pernas, um esquecimento para ser esquecido, eu digo, e penso mais uma vez em reconstruir a casa, essa casa que só a memória pode manter em pé.

 

Conto premiado com o primeiro lugar no concurso da Off-flip 2007.



Escrito por Vassallo às 18h28
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