Contos de Luis Vassallo


O corpo do texto

 

Meu sonho sempre foi fazer tatuagens. No peito vai uma bem grande, minha vida é um livro aberto. Na careca, alguma coisa solene como morada dos deuses. Talvez até merecesse. Mas arrumei algo melhor como beco sem saída ou titica de galinha. Ah sim, gostei. Bem mais apropriado. Nas pálpebras, o corte da navalha. Na boca, o sol escaldante. Nos lábios, comprando gato por lebre. Nas orelhas e ouvido, aqui Judas perdeu as botas. Vamos virar o corpo. Nas costas peludas, pradarias selvagens. No cóccix, o buraco é mais embaixo. Na bunda, não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje. No cu, um vaidoso abismo da alma, e um misterioso na boca da noite. Voltemos ao outro lado. No coração, o sono dos justos. No suvaco, brisa matinal. No antebraço, tempo é dinheiro. Nas mãos, o silêncio opressor. No indicador direito, senta que lá vem a história. No púbis, mato sem cachorro. No pinto, ah, no pinto, início dos tempos, elixir da vida. Não, muito grande, não vai caber. Entre a cruz e a espada. É maior ainda mas não importa, aliás só coube a palavra entre. Talvez pudesse ser, peso dos anos, não sei. Nos joelhos, olhos de Capitu. No pé esquerdo, cagando e andando. No pé direito, siga a voz da experiência. Poderia continuar, mas me pediram para colocar a tampa antes que esfriasse. O corpo de papai estava lindo para o enterro. Ficaria orgulhoso. Para a epígrafe, uma foto e sua frase preferida, uma imagem vale mais que mil palavras.



Escrito por Vassallo às 23h12
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